Notas sobre Futebol e Estética (2) - Contra Guardiola

Existem três esportes chamados futebol: um primeiro em que se engaja como numa religião, um segundo que se funda em função do resultado, um último que se contempla como um poema ou como um quadro. Hoje falo do terceiro. Falo deste esporte que o encantamento e o distanciamento permitem emancipar do pragmatismo mesquinho do resultado, pai dos outros dois esportes igualmente chamados futebol.


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Talvez o time que eu mais tenha detestado ver na vida tenha sido o Barcelona de Guardiola. Odiei tanto este time que consigo escalá-lo de cabeça, assim como meu avô fazia com o Galícia que em anos idos costumava destruir nosso Bahia. Lembro-me perfeitamente da maneira como a equipe catalã arrasou sucessivas vezes o carismático José Mourinho, de como goleou o Santos de Neymar e Ganso como se Pelé ou Pepe nunca tivessem vestido um dia aquela camisa alvinegra. Consigo me recordar de como Xavi e Iniesta giravam ao redor de seu próprio eixo como se nunca soubessem o que iriam fazer, de como Messi fazia gols com o desdém de quem fuzilava presos políticos, e me esqueço de absolutamente todas as aparições de Victor Valdés, um goleiro cuja silhueta simplesmente desaparece dos campos de minhas lembranças. Este time funcionava como uma repartição pública em uma utopia socialista: todas as partes operando em função umas das outras, entregando sempre aquilo que era pedido, e Guardiola sendo o chefe que havia planejado do zero todo aquele sistema que assombrava os entendidos simplesmente por, na prática, ser possível.

Mas eu não era um entendido. Não sou ainda hoje, de fato. Mas sobretudo não era naquela temporada 08/09, quando ostentava 13 pra 14 anos. O que sabia, à época, é que o time de Guardiola me parecia tão enfadonho quanto a Espanha que me colocou para dormir - literalmente - em plena final de Copa do Mundo, irmã-siamesa inegável daquele time catalão. Com o Barcelona, contudo, a questão era pessoal, e a raiva maior. Basta lembrar que, poucos anos antes disso, eu havia me acostumado a ver assombrado o time de Ronaldinho Gaúcho que, povoado por diversos jogadores medianos e de nome estranho, a despeito de um ataque que nunca parecia se encaixar por ser excessivamente bom, também ganhou absolutamente tudo mas de maneira simetricamente distinta ao time de Guardiola. Frank Rijkaard nunca foi conhecido por ser um exímio treinador, tanto que nunca se ouviu falar de algum outro trabalho seu depois daquele time; Ronaldinho sempre foi tudo que Messi não é: presepeiro, disperso, falível, encantador exatamente nisso; Deco, Giuly, Oleguer, van Bommel ou van Bronckhorst são mesmo difíceis de individualizar em características de jogo ou de postura, como faríamos com Xavi, Iniesta, Daniel Alves ou Busquets facilmente. Absoluta incompatibilidade em um espaço tão breve.

Hoje entendo, contudo, o cerne desta oposição, e ela está na figura do sempre irrefutável Pep Guardiola. O time de Ronaldinho Gaúcho - de quem sinto mais falta em campo a cada segundo em que aparece fora dele - dependia do imponderável para ganhar, do sobrenatural que encarnava na imagem daquele jogador carismático e incrivelmente feio que parecia estar numa rua de Porto Alegre com os amigos a rir do que ele próprio era capaz de fazer com os pés; não à toa foi possível que este time ganhasse de um Arsenal que, no papel, era muito mais forte e organizado para, então, perder o Mundial para um Internacional que contou com o brilho de alguém como Adriano Gabiru, cujo apelido reflete adequadamente a capacidade técnica. O Barcelona de Ronaldinho ganhava inexplicavelmente e da mesma maneira perdia, jogava com o irracionalizável ao seu lado, revelando aquilo tudo que esquemas táticos, disciplina e tecnocracia tentavam, e ainda tentam, jogar para baixo do tapete: a completa aleatoriedade que é fundo e horizonte de qualquer partida de futebol. Assumir este ponto de vista não significa a renegação da preparação física e tática ou um saudosismo a uma época em que muitas carreiras foram encurtadas por falta de preparação adequada, é claro; significa sim uma defesa dos instrumentos aprimorados pela tecnocracia como meros meios, como ferramentas que servem apenas para que o imponderável irrompa com mais brilho e mais encantamento.

Parece ser isso o que Guardiola tentava e tenta renegar a todo custo. Seu método se baseia no esforço de que o imponderável apareça o menos possível, de que os gestos sejam racionalizados, de que, ao cabo, o resultado chegue com a naturalidade como nasce uma árvore por um dia ter sido plantada e regada. A fixação pela posse de bola é o sintoma irrefutável disso. Com a posse, e com o treino incansável da disciplina tática exigida para este modelo de equipe, Guardiola parece se inspirar no basquete para impor um jogo em que haja turnos claros de defesa e de ataque, para que a emoção esteja resguardada apenas para quando todas as alternativas racionais se tenham esgotado: há drible, há golaço, há genialidade, desde que constituam alguma parte coerente do jogo. Não à toa Guardiola não admitiu Ronaldinho Gaúcho por muito tempo próximo a si.



Obviamente ninguém está aqui renegando os méritos de Guardiola, nem contestando sua capacidade como treinador. A questão aqui é ética e estética. O desgosto com o Barcelona de Pep veio do fato de seu time ser uma máquina transformar o futebol em um esporte extremamente desagradável para qualquer pessoa que não estivesse racionalizando-o ou simplesmente torcendo para o time grená. A cada segundo em que ficava claro que o jogo de futebol poderia ser pensando unicamente como um meio para um resultado - nos gestos contidos, nos lances previsíveis, na modorra dos passes para o lado e para trás -, meu ódio a este sujeito germinava. A oposição, novamente, é estética e ideológica. Ao menos por estas bandas em que somos historicamente os donos do campo, na terminologia de Wisnik, o futebol nunca se assentou no inconsciente coletivo como um jogo teleológico, mas sempre como um contexto para que a criatividade e o imponderável irrompessem a qualquer instante. Esta tese me é comprovada, nada cientificamente eu sei, quando me recordo do dia 24 de Abril de 2012, em que vi um gol do Chelsea de Mourinho - um time retranqueiro, repleto de jogadores medianos - ser comemorado efusivamente por todo um restaurante da longínqua São Caetano do Sul, sacramentando a eliminação do Barcelona de Guardiola da UCL. Ali parecia ter irrompido o gozo recalcado de todo um povo que não queria acreditar que, de 2008 em diante, o futebol pudesse ser aquilo que tentava impor Guardiola.

De lá para cá veio a prova de que tínhamos razão. Em sua carreira posterior, nunca mais o técnico espanhol conseguiu efetuar a mecânica de seu jogo com tamanha perfeição. Vieram alguns fracassos e eliminações para times pequenos, veio a própria desistência do projeto no Bayern de Munique e o futebol inconstante no minúsculo Manchester City. Como as teses de Fukuyama sobre o fim a história, as teses de Guardiola sobre o fim do aleatório se mostraram falíveis diante... do próprio correr das horas, da capacidade de reinvenção perpétua dos jogos e das pessoas, diante do próprio erro e do acerto impensável. O futebol sempre foi o esporte que eternizou jogadores como Cocada, Mineiro e Belletti, e nisso ganhou seu verdadeiro alcance e sua aura de único jogo verdadeiramente democrático. Sim, sei que há uma questão política latente aqui nesta leitura, nesta interpretação do jogo, mas creio que isso diz respeito a um quarto futebol, que me esqueci de citar no começo, e que agora não vem ao caso no fim.

Ou vem. Porque de volta ao mundo real, nos lembramos que o futebol ainda é um só. E que ver um time ou um tipo de jogo nunca é apenas isso, mas juntá-lo a nossa própria perspectiva de mundo, de política e de arte. Permaneço contra Fukuyama e contra Guardiola, desta forma.

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