o meu corpo
(Para
Ricardo Aleixo e Aristides de Sousa,
gênios
da bola)
quase duas horas pra ir e quase três para voltar porque zzzzzzzzzzzzz
a música a dança os copos as risadas pesavam sim nas pernas mas quando era a
noite eu pelo menos não tinha pressa eu podia caminhar cantar no ritmo que eu
quisesse ninguém para mandar ninguém pra obrigar dizendo não agora ou rápido
caralho ou não tem nada aqui pra você ou você não tá vendo que é pra parar mas
e pelas madrugadas responder pra eles e mexer meu corpo e levantar meus braços
e girar ao redor de meu eixo como um engenho inútil porque sim porra porque eu
queria porque eu podia e porque se eles viviam na minha cabeça era só pra que
eu desse uma resposta tão enorme e tão clara que eles não teriam o que fazer que
eles teriam que ver que aguentar o meu corpo se jogando no espaço caminhando e
parando de caminhar e então correndo e então deixando de correr e como eu era
feliz quando eu era feliz o pouco que eu era feliz meu deus eu daria tudo pra
voltar praquelas luzes distantes pro vento frio da noite e não importa que nunca
valesse as horas torrando ao sol a indiferença boba dos cavalos e aquela gente
que via a gente como uns bichos uns fiapos de mato que crescem num piso sem que
ninguém tenha regado porque a sorte que deus me deu foi de nunca ter acreditado
no que diziam de ter seguido minhas pernas por tantos caminhos campos becos
vielas e quantos amigos ainda estão ouvindo as mesmas merdas da boca de outras
pessoas sentindo sede e dor nas costas mentindo a idade pela cor dos cabelos e com
a cara franzida de tentar ver onde é que se escondem as coisas nos quintais
cercados do mundo e zzzzzz eu não sei se sou melhor do que eles por estar agora
tão distante de suas vidas não sei mesmo quem ganhou ou quem perdeu ou se no
verdadeiro jogo só há mesmo duas respostas eu só estou aqui agora porque tapei
os ouvidos com toda a força para tentar escutar o chiado que vem de dentro que
vem sabe deus da onde esse barulho mesmo que são quarenta setenta mil pessoas
juntas lado a lado como ousam as coisas abafar o som desta multidão que vive no
lado de dentro e aumentar sua música idiota pra que a gente não ouça não sinta
nada além daquilo que parece ser o único corpo oco do mundo quando é só uma
simples mentira canalha e zzzzzzzzzzzzzzzzz eu não sou melhor do que ninguém só
porque eu me escuto e quem sabe se eles só não estejam aqui agora porque ouviram
seu lado de dentro um dia ou porque talvez melhor seja se entregar mas por deus
pelo menos saber contra o que você joga ou qual a regra que tão te despejando ou
sob quais olhos estão te olhando o paulinho a dedé a ana o jefferson o finado
careca o marco antônio não podem estar errados mas eu também sei que não posso fui
eu que escolhi a escolha que eu fiz e eu sei que isso aqui é o mais perto que dá
pra chegar de tomar a vida inteira como uma noite daquelas que acabam só pra
que no fim da caminhada outra noite faça a vida começar mais veloz jovem viva nunca
nunca chegar em casa deitar um pouco esperar o sol aparecer para nos obrigar a
suar em bicas nunca nunca mais porque agora suar o meu próprio suor e talvez
até seja feliz quando menos perceba mas o que isso quer dizer para os olhos de
paulinho dedé ana marco antônio que me procuram agora e zzzzzzzzz se eu não
puder dar uma resposta ou se minha resposta desapontar por ser cara brilhante
bela ou por ser frustrante podre real meu deus o que fazer com os sonhos dos
outros quando temos as razões secretas do nosso próprio corpo viver para si pode
ser o bastante hein não é muito egoísmo tentar ser feliz hein meu deus como é
difícil não saber o que você tem direito nesta vida para além da própria vida eu
me lembro de como a mãe me cobria de chutes porque sabia que me amava e que não
se pode vencer as ruas só escutando sua própria voz no espelho mas em todo
canto do mundo estão as regras para nos dizer o que fazer mas em todo canto eu
sei há também um ponto surdo mãe em que nós nos escutamos enganamos vivemos invertemos
o lado de fora pro lado de dentro o aleatório pro que é divino e o vazio pro
corpo que insiste em seguir existindo e zzzzzzzzzzzzz o marco antônio agora
deitado numa cama fria com a boca aberta olhando a tv sem som e talvez se
perguntando o que é verdade e o que é mentira nesta vida nunca mais trabalhar
marco antônio nunca mais dançar nunca mais virar madrugadas frias marco antônio
você que ao menos sobreviveu pra encarnar esta história meu deus como o dia de
hoje é minúsculo perto de tudo mas como este momento é eterno por ser o único
em que estamos vivendo eu me lembro da lição do careca eu nunca nunca esqueceria
onde vivem as cores desta noite e zzzzzzz nada é mais fácil que assumir um time
para si e saber quando se ganha e saber quando se perde então escuta que eu falo
a verdade absoluta ou se torce pro juiz ou se torce para a bola porque o resto
é se enganar ou mentir ou encenar e ora é claro meu amigo que eu escolhi viver
pela bola e amar quando ela se desmente quando ela encarna um deus criando e
destruindo escolhendo os escolhidos não perguntando por ninguém mas só com
outros se movendo como você pôde morrer tão cedo meu amigo e que desperdício para
um corpo se deixar morrer como um cavalo cansado minha mãe ou que nem um bicho
de abate meu amigo e porque dar essa liberdade pra que as coisas nos odeiem sob
as vozes que gritam ordem são eles que eu sei que torcem pelo juizzzzzzzzz e
inventam o lado de fora minhas pernas estão exaustas tortas mas esse cansaço não
podia ser melhor agora essa dor de quem passa os dias correndo das leis mornas de
soldadinhos da polícia pra que quando nos cerquem eles vejam que nada fizemos que
só corremos porque quisemos ora mas pra quantas pessoas isso mesmo é possível porque
aqui eles perseguem mas lá fora eles primeiro atiram o paulinho o zé pedro o
carlinhos eles bem sabem disso sabem que não é fácil meu deus não é mesmo fácil
ser um pouco bom com o que você deseja se respeitar um pouco mais do que os
outros te respeitam porque mudam as vidas e mudam os termos e o barulho desse
mundo respirante que me enche por dentro não existe certeza que fique só entre
as peles de um sujeito a gente constrói isso tudo juntos uns contra os outros uns
pelos outros esse é o verdadeiro jogo e esse é o jogo que vive debaixo da casca
do outro é ele que eu quero e é nele que eu acredito quando me lembro quando sinto
dor quando deixo que alguém invada um espaço vazio que se forma nas quinas do
meu corpo esse é o verdadeiro jogo e zzzzzz enganar as formas ligar os pontos ser
operário nessa fábrica de nada ou então colher o que surge nesta fazenda do
vazio porque erguer prédios pontes viadutos é tão burro tão imbecil nunca irão
saber como é difícil moldar o nada dar contorno pro que não existe e é esse sim
o jogo jefferson e eu sei que não tenho os seus olhos ou as cifras das suas
contas pendentes mas é esse o jogo sim e aqui estão os meus dois pés e agora não
nos resta além de
Soa o apito. O juiz
autoriza.

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