Notas sobre Futebol e Estética (5) - o meu corpo


o meu corpo

(Para Ricardo Aleixo e Aristides de Sousa,
gênios da bola)

quase duas horas pra ir e quase três para voltar porque zzzzzzzzzzzzz a música a dança os copos as risadas pesavam sim nas pernas mas quando era a noite eu pelo menos não tinha pressa eu podia caminhar cantar no ritmo que eu quisesse ninguém para mandar ninguém pra obrigar dizendo não agora ou rápido caralho ou não tem nada aqui pra você ou você não tá vendo que é pra parar mas e pelas madrugadas responder pra eles e mexer meu corpo e levantar meus braços e girar ao redor de meu eixo como um engenho inútil porque sim porra porque eu queria porque eu podia e porque se eles viviam na minha cabeça era só pra que eu desse uma resposta tão enorme e tão clara que eles não teriam o que fazer que eles teriam que ver que aguentar o meu corpo se jogando no espaço caminhando e parando de caminhar e então correndo e então deixando de correr e como eu era feliz quando eu era feliz o pouco que eu era feliz meu deus eu daria tudo pra voltar praquelas luzes distantes pro vento frio da noite e não importa que nunca valesse as horas torrando ao sol a indiferença boba dos cavalos e aquela gente que via a gente como uns bichos uns fiapos de mato que crescem num piso sem que ninguém tenha regado porque a sorte que deus me deu foi de nunca ter acreditado no que diziam de ter seguido minhas pernas por tantos caminhos campos becos vielas e quantos amigos ainda estão ouvindo as mesmas merdas da boca de outras pessoas sentindo sede e dor nas costas mentindo a idade pela cor dos cabelos e com a cara franzida de tentar ver onde é que se escondem as coisas nos quintais cercados do mundo e zzzzzz eu não sei se sou melhor do que eles por estar agora tão distante de suas vidas não sei mesmo quem ganhou ou quem perdeu ou se no verdadeiro jogo só há mesmo duas respostas eu só estou aqui agora porque tapei os ouvidos com toda a força para tentar escutar o chiado que vem de dentro que vem sabe deus da onde esse barulho mesmo que são quarenta setenta mil pessoas juntas lado a lado como ousam as coisas abafar o som desta multidão que vive no lado de dentro e aumentar sua música idiota pra que a gente não ouça não sinta nada além daquilo que parece ser o único corpo oco do mundo quando é só uma simples mentira canalha e zzzzzzzzzzzzzzzzz eu não sou melhor do que ninguém só porque eu me escuto e quem sabe se eles só não estejam aqui agora porque ouviram seu lado de dentro um dia ou porque talvez melhor seja se entregar mas por deus pelo menos saber contra o que você joga ou qual a regra que tão te despejando ou sob quais olhos estão te olhando o paulinho a dedé a ana o jefferson o finado careca o marco antônio não podem estar errados mas eu também sei que não posso fui eu que escolhi a escolha que eu fiz e eu sei que isso aqui é o mais perto que dá pra chegar de tomar a vida inteira como uma noite daquelas que acabam só pra que no fim da caminhada outra noite faça a vida começar mais veloz jovem viva nunca nunca chegar em casa deitar um pouco esperar o sol aparecer para nos obrigar a suar em bicas nunca nunca mais porque agora suar o meu próprio suor e talvez até seja feliz quando menos perceba mas o que isso quer dizer para os olhos de paulinho dedé ana marco antônio que me procuram agora e zzzzzzzzz se eu não puder dar uma resposta ou se minha resposta desapontar por ser cara brilhante bela ou por ser frustrante podre real meu deus o que fazer com os sonhos dos outros quando temos as razões secretas do nosso próprio corpo viver para si pode ser o bastante hein não é muito egoísmo tentar ser feliz hein meu deus como é difícil não saber o que você tem direito nesta vida para além da própria vida eu me lembro de como a mãe me cobria de chutes porque sabia que me amava e que não se pode vencer as ruas só escutando sua própria voz no espelho mas em todo canto do mundo estão as regras para nos dizer o que fazer mas em todo canto eu sei há também um ponto surdo mãe em que nós nos escutamos enganamos vivemos invertemos o lado de fora pro lado de dentro o aleatório pro que é divino e o vazio pro corpo que insiste em seguir existindo e zzzzzzzzzzzzz o marco antônio agora deitado numa cama fria com a boca aberta olhando a tv sem som e talvez se perguntando o que é verdade e o que é mentira nesta vida nunca mais trabalhar marco antônio nunca mais dançar nunca mais virar madrugadas frias marco antônio você que ao menos sobreviveu pra encarnar esta história meu deus como o dia de hoje é minúsculo perto de tudo mas como este momento é eterno por ser o único em que estamos vivendo eu me lembro da lição do careca eu nunca nunca esqueceria onde vivem as cores desta noite e zzzzzzz nada é mais fácil que assumir um time para si e saber quando se ganha e saber quando se perde então escuta que eu falo a verdade absoluta ou se torce pro juiz ou se torce para a bola porque o resto é se enganar ou mentir ou encenar e ora é claro meu amigo que eu escolhi viver pela bola e amar quando ela se desmente quando ela encarna um deus criando e destruindo escolhendo os escolhidos não perguntando por ninguém mas só com outros se movendo como você pôde morrer tão cedo meu amigo e que desperdício para um corpo se deixar morrer como um cavalo cansado minha mãe ou que nem um bicho de abate meu amigo e porque dar essa liberdade pra que as coisas nos odeiem sob as vozes que gritam ordem são eles que eu sei que torcem pelo juizzzzzzzzz e inventam o lado de fora minhas pernas estão exaustas tortas mas esse cansaço não podia ser melhor agora essa dor de quem passa os dias correndo das leis mornas de soldadinhos da polícia pra que quando nos cerquem eles vejam que nada fizemos que só corremos porque quisemos ora mas pra quantas pessoas isso mesmo é possível porque aqui eles perseguem mas lá fora eles primeiro atiram o paulinho o zé pedro o carlinhos eles bem sabem disso sabem que não é fácil meu deus não é mesmo fácil ser um pouco bom com o que você deseja se respeitar um pouco mais do que os outros te respeitam porque mudam as vidas e mudam os termos e o barulho desse mundo respirante que me enche por dentro não existe certeza que fique só entre as peles de um sujeito a gente constrói isso tudo juntos uns contra os outros uns pelos outros esse é o verdadeiro jogo e esse é o jogo que vive debaixo da casca do outro é ele que eu quero e é nele que eu acredito quando me lembro quando sinto dor quando deixo que alguém invada um espaço vazio que se forma nas quinas do meu corpo esse é o verdadeiro jogo e zzzzzz enganar as formas ligar os pontos ser operário nessa fábrica de nada ou então colher o que surge nesta fazenda do vazio porque erguer prédios pontes viadutos é tão burro tão imbecil nunca irão saber como é difícil moldar o nada dar contorno pro que não existe e é esse sim o jogo jefferson e eu sei que não tenho os seus olhos ou as cifras das suas contas pendentes mas é esse o jogo sim e aqui estão os meus dois pés e agora não nos resta além de

Soa o apito. O juiz autoriza.



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